Campos
Alguma coisa tem de ter sentido. E quando nada mais tiver, ainda vou sobrar-me a mim mesmo. Até lá, tento buscar um sentido em mim.
Pensamentos paralelos
s os interessados nesse tipo de produção jornalística, João Moreira Salles resolveu fazer essa publicação que tem uma preocupação: fazer reportagens. É estranho dizer isso, mas essa revista será para ler, e não apenas para folhear. E para aqueles que ainda teimam em pensar o contrário, será (ou pelo menos espero) uma boa oportunidade para se ver que jornalismo pode ser criativo. Pode encontrar assuntos que fujam da agenda do dia, assim como pode ouvir fontes que não sejam “oficiais”, mas que têm muita história a falar e contribuir com a qualidade dos que se vê nas bancas de revistas. Tomás surpreendeu-se com a ocorrência. Sua vida medíocre não apresentava estrutura suficiente para tais visões, principalmente as abruptas como essa. Até sentiu-se invadido, ameaçado. Hesitava sobre os direitos que qualquer acontecimento teria para poder aparecer diante de seu cotidiano. Uma vivência sem sabor, sem passado e futuro, conversas, amizades e discussões. Nada, simplesmente nada era o que a Tomás pertencia além de uma sala ecoante, uma fétida e empoeirada despensa e um guarda-roupa úmido e quase vazio. Acostumara-se com essa realidade após a morte de sua esposa Júlia e o distanciamento de seus filhos e netos após a fatalidade.
As paredes brancas, amareladas nos cantos, tão solitárias de barulhos, conversas, músicas, gargalhadas, surpreenderam-se tanto quanto o proprietário do apartamento que sustentavam. A candidez tornou-se avermelhada quando aquele objeto voador passou vagarosamente diante da varanda, agora tirando algumas leves expressões do rosto de Tomás.
O velho, irritado com tal ocupação de sua vista panorâmica e imutável de Caminae, sua cidade, pela qual tanto se apegara durante sua longa e infindável vida, começou a gritar para aquela máquina de pintura pomposa e de postura magnífica. Era muito maior e imponente nesse momento, quando a via de perto, o que não intimidou o infeliz quando, aos berros e insultos, chegava ao seu ponto máximo de exaltação.
Tanta fúria interrompeu-se abruptamente quando seus óculos colidiram com a escura e fria ardósia, após um longo vôo parabólico, trincando suas lentes e multiplicando o reflexo em centenas de agitados pontos vermelhos. Não tão nitidamente quanto estes pontos, a vista de Tomás turvou-se desesperadamente. Na sua áspera testa surgiam gotículas de suor que não tardavam a escorregar e molhar suas longas e embaraçadas sobrancelhas.
O vermelho estagnou-se.
Lúcia aproximou-se de Tomás e, com toda a calma e segurança profissional, retirou-lhe o fino cilindro de vidro dos lábios trepidantes e verificou o grau febril. Os quatro filhos do velho enfermo aguardavam em pé, próximos à porta do quarto, como se soubessem que estavam diante de mais um pequeno susto procedente do pai. A enfermeira passou uma pequena toalha branca naquele rosto úmido e agitado. Ajeitou o travesseiro torto, posicionado como tal após os incessantes movimentos do acamado. Voltou-se aos filhos, impacientes, e disse que poderiam voltar às suas casas sem nenhuma preocupação.