Centelha Centrífuga

Pensamentos paralelos

Quinta-feira, Novembro 16, 2006

Campos

Cada dia é uma luta; cada ano de vida, uma dádiva. Atravessar a cidade, em meio ao caos, uma incerteza, uma batalha. Quem sobrevive aos prédios em obras e aos abandonados, à miséria que deita na esquina, ao trânsito que abraça todos com fumaças, chega ao final do dia lutando contra suas próprias lembranças. Outdoors, buzinas, correria, relógio, pressa, falta de educação. Nada faz sentido, por mais que as pessoas tentem acreditar que sim.

Alguma coisa tem de ter sentido. E quando nada mais tiver, ainda vou sobrar-me a mim mesmo. Até lá, tento buscar um sentido em mim.

Domingo, Novembro 12, 2006

Da Nota ao Conto

Notícia da Folha:

-- Presos em greve de fome têm visita suspensa

Os 44 presos em greve de fome desde segunda-feira no Centro de Readaptação Penitenciária (CRP) de Presidente Bernardes (589 km de SP) foram punidos pela diretoria da unidade e não terão direito a visitas de parentes neste final de semana.
A punição vai vigorar inicialmente por 30 dias. Entre os detentos punidos está Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como o principal líder do PCC.
Um funcionário da Secretaria da Administração Penitenciária, que pediu para não ser identificado, disse que o protesto é visto como motim. A greve entra hoje em seu quinto dia.


Conto do Fred:

-- Uma Primavera

Em setembro de 2008 representantes dos desempregados de todo o país resolveram que entrariam em greve de fome por maiores condições e qualidade de vida.

Adilson, o líder do movimento, foi o primeiro a anunciar, como de praxe, em um megafone abaixo do Masp, na Avenida Paulista. Isso já era uma atitude radical por si só, já que há meses os jornais temiam o desmoronamento do museu depois de um famoso engenheiro da capital ter anunciado que uma das quatro colunas de sustentação do museu estava condenada. Mas o homem que berrava por melhores condições aos brasileiros pouco se importava que o alto timbre de sua voz poderia acelerar um provável desastre.

Os policiais chegaram rapidamente. Com uma certa distância, cercaram aquele louco que pedia para que os milhões que se encontravam como ele fizessem o mesmo a partir daquele dia de Primavera. Usou a estação para comparar ao começo de um novo ciclo no Brasil, o que já se tinha ouvido tantas vezes na história política nacional.

Sabe-se lá por quê, Adilson conseguiu a simpatia de muitos, dentre os quais um grande número resolveu que o seguira também.

Mas aquela barreira de cones vermelhos e fitas amarelas improvisada pela polícia impedia que qualquer pessoa se aproximasse do líder. Além de contribuir com a algazarra, mais gente embaixo daquela caixa de concreto seria um desastre ainda maior. E foi quando Adilson sentou-se no chão para começar a greve que o museu veio a baixo. A comoção foi geral. A greve ficou em segundo plano. Nem Renoir conseguiu escapar da mortal e voluntária implosão de sua casa.

No dia seguinte, começo de Primavera, uma nova Lei foi levada à Câmara dos Deputados: multa para grevistas de fome. Quem se recusasse a comer por mais de um dia, seria autuado em flagrante. Os moradores de rua preocuparam-se, mas acalmaram-se ao notar que nunca recusariam um prato de comida. Mas isso é outra história.



Terça-feira, Outubro 31, 2006

Bono Rita Vox Lee

Depois que terminei meu TCC sobre a Rita Lee no meio do ano passado, me deparei com várias informações que poderiam ter melhorado meu trabalho original. Mas isso é típico de pautas jornalísticas. O mundo não pára e uma reportagem tem grandes chances de ser estática em relação a isso. Não dá para sofrer diante disso. Nem há motivos para tanto.

Pois bem. Ontem, diante da tão anunciada entrevista com Rita no Fantástico, pensei que iria me deparar com mais alguma coisa bombástica explodiria diante de meus olhos depois de mais um ano de conclusão do curso. Infelizmente, nunca vi tanto do mesmo: enfatizou que é contra os rodeios, que já recebeu ligações ameaçadoras; que acabou de parar definitivamente com as drogas e está disposta a encarar os sessenta anos.

Na verdade, uma coisa me surpreendeu: sua opinião sobre o vocalista Bono Vox e a atitude do líder do U2 a favor dos direitos humanos e outras causas relacionadas. Depois de falar em prol dos animais e seu próprio repúdio contra essas práticas terríveis, ela solta que o cantor irlandês só busca o marketing pessoal.

Até posso tentar achar um marketing na atitude do cantor do U2. Mas ainda não achei um motivo dessa “entrevista reveladora” dada para o Fantástico. Tudo bem que pendurar terço no microfone pode não melhorar o panorama mundial, mas acho muito contraditória a declaração de Rita quanto ao ativismo de Bono, logo depois de ter se pronunciado contra o rodeio. Mais contraditória fica a situação quando a nossa querida titia usa o horário nobre da Globo no domingo para dizer o que já sido dito há anos.

Definitivamente, ainda me pergunto o por quê dessa entrevista. Sem mágoas, Rita, mas com umas interrogações pairando no ar...



Vídeo: cada um usa o microfone do jeito que quiser...

Quinta-feira, Outubro 19, 2006

Para ouvir enquanto aguardamos

Mais uma para não morrer antes de escutar.
Quem já assistiu ao documentário "Nós que aqui estamos por vós esperamos" sabe que, além do primor das imagens e edição, a qualidade da trilha sonora marca tanto quanto o que se vê. O diretor, Marcelo Masagão, encontrou seu estilo de fazer documentário e este, que tem o perfil de registro histórico (neste caso, um registro do século XX), tem um resultado único na produção de peças nacionais neste gênero. As músicas do compositor belga minimalista Wim Mertens são tão importantes na sensibilidade do filme quanto o vasto arquivo de imagens que retratam o século passado.

Para quem já assistiu ao filme gostou da trilha, encontrei essa apresentação de Mertens, da música "Strugle for Pleasure". Quem ainda não viu, não deixe de ver!!

Sexta-feira, Outubro 06, 2006

De volta à realidade! Viva o JL!!!


Louvado seja! Enquanto alguns ainda discutem o que é Jornalismo Literário, tem gente que não pára só por aí. Não há mal nenhum as discussões em torno do tema, mas o pior é ficar só no gogó ao invés de dar a cara à tapa e sair fazendo o tal do JL (ou Jornalismo Narrativo, como preferir).

Quem é da época, pode lembrar que esse estilo foi muito usado nos anos 60 e 70 aqui no Brasil, com a finada Revista Realidade (Abril). Lá, entre a centenas de páginas, podia-se encontrar verdadeiras narrativas de qualidade. Narrativas da vida real, sobre acontecimentos e pessoas feitas de carne o osso como você e eu. Oras, por que acabou?

Tudo bem que o regime militar conseguiu apagar com quase tudo que era de qualidade nesse país. E quando voltamos à democracia, a imprensa já estava contaminada pelo hard news way of life que, assim como jornalismo literário, era muito forte nos Estados Unidos. Podem falar o que quiser, mas os Estados Unidos inventa moda, só que também sabe manter o que produz de bom. A revista The New Yorker (link ao lado) existe há mais de 70 anos e continua produzindo ótimos textos desde que nomes como Truman Capote, Joseph Mitchell, Lillian Ross e muitos outros habitaram suas páginas.

Aí vem um grupo da Associação dos Amantes do Lide (acabei de inventar isso) com todas as desculpas para dizer como é que o Jornalismo Literário não é mais viável nos tempos de hoje. Para mim, o inviável é fazer entrevistas sem sair das salas de redação, por telefone, e-mail etc... Desculpem, mas a sola do meu sapato é feita pra gastar.

Preguiças à parte, há profissionais, como o do Texto Vivo (link aí no menu!) que já tirou se propôs a dar o exemplo de tirar a bunda da cadeira na hora de fazer um boa narrativa sobre a vida ral. E espero não queimar minha língua daqui um tempo em relação às minhas esperanças despertadas pela Revista piauí, que sai na semana que vem (link também ao lado). Assim como todos os interessados nesse tipo de produção jornalística, João Moreira Salles resolveu fazer essa publicação que tem uma preocupação: fazer reportagens. É estranho dizer isso, mas essa revista será para ler, e não apenas para folhear. E para aqueles que ainda teimam em pensar o contrário, será (ou pelo menos espero) uma boa oportunidade para se ver que jornalismo pode ser criativo. Pode encontrar assuntos que fujam da agenda do dia, assim como pode ouvir fontes que não sejam “oficiais”, mas que têm muita história a falar e contribuir com a qualidade dos que se vê nas bancas de revistas.

Quinta-feira, Setembro 28, 2006

Três Minutos

Resolvi postar o conto "Três Minutos". Saiu no Comunique-se, mas nem todo mundo tinha cadastro e conseguiu ler. Então vai aqui o conto meio requentado. Mas tá valendo.
Três minutos

Era um objeto de amplitude considerável, vermelho e reluzente. O contraste sobreposto no anil fosco do céu tornava a cena ainda mais inesperada. A engenhoca, que nada tinha de geringonça, como se podia ouvir de algumas pessoas que a avistavam, parecia ter em seu equilíbrio um único eixo, bem no seu centro. Suas laterais inclinavam-se para cima ou para baixo assim que sua frente se direcionava à esquerda ou à direita. A ação do maquinista ou de quem quer que fosse o piloto do veículo era a regência dos soltos movimentos que iludiam os curiosos olhares. O céu passou a parecer escorregadio, uma composição de frouxa consistência.

Adiante, apesar dessas errantes agitações, seguia adiante. Aliás, não havia quem entendesse a maneira pela qual se conduzia o enorme aparelho rubro. Afinal, quem pode julgar tal ação já que é inédita a qualquer olhar, pelo menos ao racional. Aqueles que o faziam não passavam de bravateadores, tirando os bêbados e os loucos. De qualquer forma, havia algo de estranho, talvez por ser algo inédito, na forma em que desenhava o céu. Além da fumaça branca debandada da chaminé preta, confundindo-se com nuvens tão claras quanto esta névoa tubular, havia um leve risco branco por onde as rodas passavam, como se fossem resultados da ebulição de algumas partículas líquidas encontradas porventura na via celeste.

Tomás surpreendeu-se com a ocorrência. Sua vida medíocre não apresentava estrutura suficiente para tais visões, principalmente as abruptas como essa. Até sentiu-se invadido, ameaçado. Hesitava sobre os direitos que qualquer acontecimento teria para poder aparecer diante de seu cotidiano. Uma vivência sem sabor, sem passado e futuro, conversas, amizades e discussões. Nada, simplesmente nada era o que a Tomás pertencia além de uma sala ecoante, uma fétida e empoeirada despensa e um guarda-roupa úmido e quase vazio. Acostumara-se com essa realidade após a morte de sua esposa Júlia e o distanciamento de seus filhos e netos após a fatalidade.

As paredes brancas, amareladas nos cantos, tão solitárias de barulhos, conversas, músicas, gargalhadas, surpreenderam-se tanto quanto o proprietário do apartamento que sustentavam. A candidez tornou-se avermelhada quando aquele objeto voador passou vagarosamente diante da varanda, agora tirando algumas leves expressões do rosto de Tomás.

O velho, irritado com tal ocupação de sua vista panorâmica e imutável de Caminae, sua cidade, pela qual tanto se apegara durante sua longa e infindável vida, começou a gritar para aquela máquina de pintura pomposa e de postura magnífica. Era muito maior e imponente nesse momento, quando a via de perto, o que não intimidou o infeliz quando, aos berros e insultos, chegava ao seu ponto máximo de exaltação.

Tanta fúria interrompeu-se abruptamente quando seus óculos colidiram com a escura e fria ardósia, após um longo vôo parabólico, trincando suas lentes e multiplicando o reflexo em centenas de agitados pontos vermelhos. Não tão nitidamente quanto estes pontos, a vista de Tomás turvou-se desesperadamente. Na sua áspera testa surgiam gotículas de suor que não tardavam a escorregar e molhar suas longas e embaraçadas sobrancelhas.

O vermelho estagnou-se.

Lúcia aproximou-se de Tomás e, com toda a calma e segurança profissional, retirou-lhe o fino cilindro de vidro dos lábios trepidantes e verificou o grau febril. Os quatro filhos do velho enfermo aguardavam em pé, próximos à porta do quarto, como se soubessem que estavam diante de mais um pequeno susto procedente do pai. A enfermeira passou uma pequena toalha branca naquele rosto úmido e agitado. Ajeitou o travesseiro torto, posicionado como tal após os incessantes movimentos do acamado. Voltou-se aos filhos, impacientes, e disse que poderiam voltar às suas casas sem nenhuma preocupação.

Quarta-feira, Setembro 13, 2006

Monólogo na diretoria

Vejo que sua cara de desalento quer me perguntar por que isso aconteceu . A resposta é nem eu sei. Saibas que tal questão surge como um pêndulo que, uma vez que empurro contra meu corpo, volta com a mesma velocidade à minha testa. Mas também é válido por eu constatar, com surpresa, de que isso não é de todo mal, já que se você esperava algo de mim, isso eu considero como um dos mais profundos elogios.

Sempre me achei um tanto quanto sem sal, sem voz, imaginando-me desprezível. Certas vezes eu percebia pessoas implicando comigo quando eu insistia em entrar no meio de uma conversa, mesmo não estando na roda, mas me sentindo no direito de apenas saber sobre o assunto. Hoje vejo que isso era uma forma para eu mostrar-me capaz. Mas no final estava lutando contra meus próprios objetivos de querer ser um pouco mais considerado.

Agora, olhando para sua cara de desapontamento me dá uma satisfação que sinto correr no sangue de todo o meu corpo. Como se fosse uma descarga de adrenalina. Maldita adrenalina. Adrenalina. Adrenalina. Uma satisfação de saber que você esperava mais de mim e, mesmo não conseguindo te satisfazer, contento-me ao menos em saber que um dia eu fui algo mais do que acreditei. Pelo menos para alguém. Pode colocar sua roupa, meu sangue não corre em todas as minhas veias como deveria correr agora.